Herois da “América”

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Meu lado ansioso se sente intimado em começar a ver seriados novos. Fico logo preocupada com a quantidade de episódios de cada temporada e com a quantidade de tempo que precisarei para me dedicar ao seriado; tempo este que sempre duvido se merece ou não ser gasto com algumas obras. Sendo assim, devo dizer que mesmo com apenas uma temporada e ótimas críticas, demorei muito até decidir dar uma chance a American Crime Story: O Povo contra O.J Simpson. Sempre fui fascinada por histórias de tribunais, com seus personagens inteligentes usando de toda retórica junto a informações precisas sobre casos sempre complicados de julgar, sejam pela dubiedade dos acusados ou pela dificuldade em tirar conclusões precisas porque não há dados suficientes.

Me arrependo de não ter visto mais cedo. American Crime Story foi além daquilo que eu esperava de uma típica “história de tribunal”, apresentando diversos lados desta história. Mérito da obra que conseguiu utilizar-se da linguagem televisiva para deixar uma história real por si só polêmica e atraente em ainda mais empolgante e questionadora.

Todavia, como eu disse anteriormente: O caso O.J Simpson já é por si só atraente e impactante. Quem viveu aquela época sabe disso. Quem não viveu, entende a partir desta série o porque que se trata de uma história que ainda merece ser contada.

Isso se tornou ainda mais óbvio quando praticamente emendei tal série com o documentário O.J Made in America, com suas impressionantes 7:30 horas de duração. Se antes já estava envolvida demasiadamente com a história, foi neste documentário que fiquei pensando por dias a fio no que foi que tinha assistido. Sentia que eu havia me transformado numa especialista em O.J Simpson, porém uma total tola sobre a natureza humana. Sobre nossa sociedade.

Sobre como é difícil ser o juiz de algo que vai além de alguma verdade. Além de um homem.

O documentário é sobre ascensão e queda. Mas também é mais que isso. É sobre as condições que fazem de um indivíduo chegar lá e o papel da sociedade nesse caminhar. Ainda, é sobre como a pessoa espelha ou não o seu ambiente.

É uma história fascinante que te faz entender por A+B que nada na vida é preto no branco. O.J era fruto de uma sociedade racista que o aceitava melhor porque este se via como branco? Ele se via como branco porque foi enfeitiçado pelo privilégio branco? Até onde o racismo velado da sociedade conseguiu sustentar o amor por O.J até o limite? Até onde as ambições deste o permitiu ser sustentado por esse lado obscuro da sociedade estadunidense? Como alguém tão famoso e querido tornou-se alguém tão agressivo com sua esposa? Teria sido seu desejo por ser amado e o ego inflado pela fama o fez pensar em Nicole Brown como sua posse? Isso é motivo para ciumes obsessivo? ELE MATOU SUA MULHER???

A série ainda foi capaz de deixar algumas dúvidas em mim depois de ter visto, mas no documentário minha posição ficou clara diante de tantas provas apresentadas tanto no julgamento quanto após o famigerado veredicto: Ficou claro que O.J era o culpado. Mas o pior é que, se na série você é capaz de sentir um pouco mais de raiva pela absolvição de O.J – especialmente pela simpatia que criamos pela promotoria – no documentário você se pergunta se havia outro resultado possível além de declará-lo inocente. Você entende ainda mais a revolta do povo negro americano contra a polícia racista de L.A. Um desejo de vingança que veio no formato de um homem negro e famoso… Que infelizmente não era o maior exemplo de militante negro. E o pior: Alguém que no final talvez não merecesse a inocência.

Qual o limite entre o homem e o mito? É justo apagar os crimes e pecados de um indivíduo em nome de uma luta maior? A morte de duas pessoas de forma tão brutal, sendo ainda um caso de feminicídio e violência doméstica, eram mais importantes que anos de agressões e mortes de afro-americanos causadas pela polícia? Mas se o julgamento era de fato sobre esses assassinatos… Não deveria estar sendo esse crime o caso a ser julgado?

O que é justiça? Qual a verdadeira luta?

O que é ser heroi na “América”?

Só me vem uma frase falada por uma jornalista ao documentário: “É difícil não pensar que O.J é o verdadeiro culpado. Mas só Deus sabe o quanto eu queria que ele não fosse.”. De fato, seria muito mais fácil, e no entanto ainda estou aqui,  tentando digerir o que vi.

Meu veredito sobre o crime? Não tenho dúvidas de que O.J de fato matou Nicole Brown e Ronald Goldman. Meu veredito sobre o caso? Minha mente ainda não chegou a um acordo. Na verdade acho que nem o resto da sociedade. E é por isso que séries de TV e documentários como American Crime Story e O.J Made in America revivem este caso: Para que o mundo nunca se esqueça que justiça, heróis e humanos só são fáceis de ser compreendidos na ficção.

Quando são.

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