A Pós-Verdade de OJ

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2016 foi um ano de muitas definições. Definiram, por exemplo, que Dilma Rousseff não seria mais presidente da república; Donald Trump seria o novo chefe de estado nos EUA ou que até mesmo o Reino Unido não estaria mais na União Europeia. Mas a palavra Pós-Verdade, escolhida pelo dicionário Oxford como a palavra daquele ano, não é exatamente uma definição feita em 2016. Segundo o Nexo Jornal, o dicionário Oxford definiu pós verdade como “um adjetivo ‘que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais’.”, todavia, não apenas o termo está cunhado com seu significado desde 1992, quando foi usado pela primeira vez em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich, como sua definição se mostra presente há tempos em nossa sociedade. Só que nunca pareceu tão significativo quanto ano passado.

Mas voltemos ao ano de 1995. O mundo parou para ver o julgamento de um dos maiores atletas da história do futebol americano. Orenthal James Simpson, mais conhecido como O.J Simpson era acusado pela morte de sua ex-mulher Nicole Brown e o amigo desta, Ron Goldman. Contra O.J, haviam inúmeras evidencias que apontavam o atleta como o autor dos assassinatos. No entanto, indo de encontro com todas essas evidencias e a confiança que a promotoria tinha nestas, O.J acabou por ser inocentado. (Anos depois, OJ seria condenado a impressionantes 33 anos depois de um assalto a um hotel-cassino, tempo de condenação este que muitos dizem ter sido um “pay back” da justiça americana).

Mas o que O.J Simpson tem a ver com Pós-Verdade? Para quem estiver interessado a saber mais sobre a história de O.J e seus julgamentos, indico a série The People v. O. J. Simpson: American Crime Story e principalmente o documentário O.J Made in America, ambos lançados em 2016. Dá para entender que a relação com a ideia de pós-verdade vai além do fato de ter tido sua história recontada à nova geração justamente no ano em que o termo foi relembrado pelo resto do mundo.

Contra fatos não há argumentos. Não é o que significou para o caso O.J Simpson. Por mais evidências que houvessem contra o ex-jogador de futebol americano, ao fim do julgamento, O.J estava participando de um julgamento que mais parecia ter nada a ver com assassinato. O.J virou uma peça no jogo de xadrez entre a comunidade negra e a polícia de Los Angeles, entre os juris e o tribunal de justiça norte-americana, entre o circo midiático criado para a história e famílias que só queriam que o culpado fosse condenado por seus crimes. E diante de tudo isso isso, o que mais se viu foi emoções a flor da pele sendo fundamental para decisões de um veredito, criação de verdades distorcidas sobre a figura de O.J ou teorias da conspiração que basicamente conseguiram ter mais força que as evidências apresentadas.

Um exemplo?

Ao fazer todo um teatro em frente aos juris ao mostrar que a luva ensanguentada encontrada em sua casa não cabia em sua mão direita, O.J Simpson plantou uma ideia que foi repetida a exaustão por seu advogado de defesa, Johnny Cochran:“if it doesn’t fit you must acquit” ( “Se não serve, você precisa inocentar”). Todavia, ao focar na imagem de imagem de O.J. colocando a luva com dificuldade, foi-se ignorado vários detalhes, como a coagulação do sangue ter encolhido a luva; o fato do próprio sangue ser compatível com as vítimas ou o detalhe de O.J estar usando uma outra luva para não estragar a evidência. Ou simplesmente detalhes óbvios como o fato do próprio O.J estar fingindo dificuldade para por a luva ou de que a luva não caber na mão de O.J seria um ótimo motivo para ela ter sido abandonada no meio do caminho. Ou pior: A luva ser pequena em sua mão não o impediria de modo algum a cometer um assassinato.

Vários pontos. Inúmeras variáveis. Uma luva que foi difícil de ser colocada na mão. Uma “verdade” jogada em um momento crucial do julgamento: A luva não coube. Não importava mais quanto de evidências fossem postas à mesa para provar que a luva “não caber” não era suficiente para inocentá-lo: O estrago já estava feito.

Na era de pós-verdade, não importa mais o quanto de falsas verdades são desmascaradas: A força de um boato é como um vírus que vai se alojar no organismo vivo que é a nossa sociedade e infectará as células que mais se mostrarão “fragilizadas”. Talvez foi por isso que, assistindo a série e principalmente ao documentário, por mais raiva que eu sentisse pelo julgamento ter saído do foco dos assassinatos, eu não conseguia ficar indignada com todas as pessoas que foram levadas pelo fluxo da pós-verdade criada para O.J. Simpson: Uma ideia plantada é forte demais pra ser vencida apenas com dados.

Ate mesmo porque: O que é A verdade?

Para mais sobre o assunto:

Série: American Crime Story: The People v. O. J. Simpson (2016). FX. USA

Documentário: O.J.: Made in America(2016). Directed by Ezra Edelman. ESPN Films. USA

“Reflexões Pop” sobre O.J Simpson:  Heróis da “América”

E mais os textos: 

How Trump’s Victory Was a Lot like the O.J. Simpson Verdict  , by John Ziegler, Nov. 2016

O que é ‘pós-verdade’, a palavra do ano segundo a Universidade de Oxford , by André Cabette Fábio, Nov. 2016

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