O Não-Ofício de Escrever

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Nestes dias estava me dedicando a ler “Não Entre em Pânico”, biografia sobre Douglas Adams escrita por Neil Gaiman, outro ícone da literatura fantástica inglesa. Dedicação esta que é na medida do possível, já que mal consigo tempo pra ler e, quando consigo, não passo de 20 páginas lidas. A correria no dia-a-dia é grande. A preguiça e falta de concentração é maior ainda. Mas o “x” da questão deste texto não é exatamente a leitura – apesar de que bem poderia ser – mas sim o seu primo bem próximo.

Eu realmente começo a acreditar que, se eu não for uma personagem de Douglas Adams por coincidência holística, devo ser no mínimo a reencarnação astral do próprio. Certo que quando ele morreu eu já havia nascido, mas coisas estranhas acontecem, mas brincadeiras a parte, não é só o fato de quase compartilharmos a mesma data de aniversário – por questões de fuso horário, se eu fosse inglesa também teria nascido no dia 11 de março, tal qual Adams – ou até o fato de sermos canhotos que nos une, mas inclusive a capacidade quase sobrenatural de se auto-sabotar na hora de escrever.

Fica claro durante as partes que já li da biografia o quão difícil era para Adams sentar, escrever e terminar no prazo. Toda a vida foi uma constante batalha consigo mesmo e com os editores de seus livros para começar seus livros… Imagine terminar a tempo. Até chegar ao fim do livro terei a certeza que seu sucesso vieram por diversos outro fatores, junto à sua genial capacidade de ser apenas genial, que passam longe de seu amor pela escrita. Ou pelo menos do ato físico em si.

De fato, Terry Jones, da trupe Monty Python, dizia que Douglas amava ter ideias novas porém detestava escrever. O próprio uma vez declarou “Odeio escrever. Adoro ser escrito”. E quanto mais eu penso nisso, mais faz sentido para mim.

Escrever não parece uma tortura até eu começar. Verdade seja dita, existem poucos prazeres maiores para mim do que a ideia de escrever. Pensar sobre todas as coisas que pretendo por no papel, imaginar o clima que transmitirei no texto e até arriscar antecipar trechos que nem formados estão e não sei descrever melhor do que “foda”.

Ai eu me sento e pego meu material para começar….

Não importa qual o tema a ser escrito, o quão excitada estou para por a ideia no papel… Sempre, SEMPRE! Sempre há algo a me incomodar. O tempo que acredito que não é suficiente, a primeira frase que não sei decidir qual será, as ideias que se misturam na cabeça até não saber exatamente o que por no papel. A vontade de escrever que vai passando… A ideia que vai se perdendo.

Eu chamo muito de procrastinação. As vezes de falta de concentração. Mas 99,9% das vezes digo que meu problema é não saber escrever. Veja bem, escrever para mim vai além de entender de regras gramaticais e afins – algo que também não entendo, mas sigamos – ou de ter uma boa ideia e vomitar no papel. Escrever é uma arte que envolve inspiração, transpiração e muitas respirações em frente ao material sendo produzido. É conseguir depois de muito esforço ter algo pronto digno de ler. E me chamar de esforçada é um ultraje.

“Doglita” – meu apelido ao papai mochileiro – certamente brigou mais consigo mesmo do que muitos outros escritores de sucesso com alguma facilidade maior de tirar suas ideias da cabeça. Mas ele enfim tirou. Transpirou. Inspirou-se. E inspirou. Quantos fãs ele não possui ao redor do mundo?

Não, não tenho pretensão de dizer que minhas ideias são dignas para se enquadrar numa literatura aclamada por gente – e não gente – do mundo todo – e de outras galáxias também – como que Doglita foi capaz. Eu só consigo pensar sobre o quão preciso me esforçar horrores por qualquer texto que eu pretenda escrever, seja ele bom ou não. O quão internamente estou apaixonada pelas ideias serem postas e expostas, porém nunca estou disposta.

Bom, quase nunca…

“Normalmente fico muito deprimido quando escrevo. Parece que escrever sempre coincide com a explosão de grandes crises na minha vida, e essas crises costumam ter um efeito terrível sobre minha habilidade de escrever. Esses dias, comecei a suspeitar que é o fato de sentar para escrever que ocasiona essas crises. Por isso que uma porção de problemas acabou aparecendo no livro. Normalmente, abaixo da superfície. Não parece que os problemas são tratados em um nível pessoal, mas são, implícita ou explicitamente.”
– Douglas Adams –

Grandes momentos para a minha escrita vêm em grandes momentos de extremos. No geral, quando estou bem “na bad” são os momentos em quem mais me sinto a vontade que pegar papel e caneta e começar a dialogar comigo mesma. As vezes sai alguma coisa. Na maioria das vezes no outro dia o papel vai parar no lixo. Muita exposição. E, exatamente como Douglas apresenta em sua citação, seja qual for a natureza dos escritos, sempre parecem que vivemos em eternos problemas que se escondem diante de floreamentos textuais. Um saco.

Estou fazendo isso neste momento.

Eu gostaria de pensar que todo esse texto é a minha forma de dizer que, talvez assim como meu querido Douglas Adams, sou um verdadeiro gênio que ainda não conseguiu escrever a obra prima da minha vida pois mais pura preguiça, mas a mais pura verdade é que esta é a maior desculpa já digitada do porque esse blog quase nunca irá se atualizar.

É muito complicado escrever, nossa mãe!

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