Afinal: O que é “Shippar”?

I will go down with this ship

Gostar de uma obra pode existir em vários níveis. Você pode, por exemplo, ter assistido a um filme e gostado tanto que decidiu indicar a outros amigos. Outras pessoas vão além e até decidem investigar making of do filme, outros trabalhos das pessoas envolvidas, dentre outras coisas. E também tem aquelas pessoas que não estão satisfeitas somente com aquela obra e decidem expandir o universo por conta própria ou ajuda de outros, lendo e/ou produzindo fanfics, fanarts, por exemplo.

Seja qual foi o nível de admiração, é interessante que, quem se interessa por uma obra, invariavelmente acaba se envolvendo com esta em maior ou em menor nível. Sentimentos são aflorados, interesses são despertados.

Pense se em algum momento da sua vida você se pegou consumindo alguma obra de entretenimento na qual possui um casal que você torceu muito para que eles ficarem juntos. Algo na forma que tais personagens são apresentados que possui uma química tão forte que parece impossível para você que aqueles personagens não terminem como um casal.

Bom, o nome disso hoje em dia é “shippar”.

De acordo com Amaral, Souza e Monteiro (2013, p.10) , “Ship é o diminutivo da palavra relationship, em inglês, relacionamento. Daí derivam os termos como shipper, aquele que torce pelo casal e cria conteúdo; shippar, o verbo; shipping, nome da prática em inglês e shippagem, como os fãs brasileiros chamam a prática.” Sendo assim, quando um fã de Crepúsculo torcia para o casal Bella e Edward ficarem juntos, eles estariam “shippando” Bella e Edward.

Mas e o que o termo “shippar” e suas variações tem a ver com cibercultura? Voltemos um pouco no tempo para entender um pouco como a cultura do fandom produziu o termo.

Lá nos anos 90, quando o seriado Arquivo X (X-Files) tornou-se uma febre no mundo todo, muitos fãs da série torciam fervorosamente que a dupla de protagonistas Dana Scully e Fox Mulder formassem um casal. Diante de comunidades virtuais que discutiam sobre a série, começaram a usar o termo “ship” e suas variações para definir os seus sentimentos diante de seu interesse sobre o futuro do casal. Não se sabe com exatidão se o termo foi cunhado por causa disso, mas para muitos da cultura da web tem essa teoria de que foi graças a Scully e Mulder que o ship passou a se tornar uma palavra no universo do fandom.

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E o termo se expandiu. Vários seriados e seus personagens da época começaram a ter seus próprios ships. Em Friends, as pessoas torciam por Ross e Rachel, por exemplo. Os neologismos também começaram a surgir depois de alguns anos. De repente, nomes de casais passavam a ser abreviados e unidos em uma só palavra para mostrar que estes são fortes, firmes e unidos como nunca. Um exemplo? Brad Pitt e Angelina Jolie assim que surgiram na mídia como casal eram tratados como Brangelina. Falando de Sculder e Mulder novamente, o termo usado para falar dos dois seria Sculder.

O mais curioso é pensar como o termo se expandiu para o além da cibercultura. Volta e meia vejo alguém dizendo que shippa “fulano com sicrano de tal”, que shippa seu amigo com outra pessoa ou até mesmo em alguma novela global você começa a dizer que shippa determinados casais.

Curioso também que esse sentimento de torcer por um casal provavelmente é muito mais antigo que os anos 90 que supostamente foi quando o termo se popularizou.

Vamos pegar por exemplo “Johnlock”. Para muitos, trata-se de um dos “ships” mais populares e mais antigos dentre as obras de ficção. Muitos fãs da famosa obra de ficção de Arthur Conan Doyle enxergava a dupla Sherlock Holmes e John Watson como mais do que simples amigos. No entanto, foi com a adaptação da obra feita pela BBC em 2007, com Benedict Cumberbatch e Martin Freeman como os protagonistas da obra, que o termo se popularizou na rede, com milhares de fanarts, fanfics dentre outras obras feitas por fãs tornarem-se populares em redes sociais como Twitter e Tumblr. Certamente entende-se que o sentimento pode até ser antigo, mas foi preciso as comunidades virtuais aparecerem para termos tais definições.

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Nada mais justo. Os universos estão interligados de forma que não há mais como dizer o que é só cultura de internet e o que é cultura da “realidade”. Afinal, aos poucos os dois significam uma mesma cultura onde memes exemplificam sua cultura cotidiana, conversam sobre assuntos vistos em redes sociais e torcem por casais como se fossem uma obra de ficção.

Ou melhor: Shippam.

Referencias Bibliográficas:

AMARAL, Adriana, SOUSA, Rosana, MONTEIRO, Camila. “De Westeros no #vemprarua à shippagem do beijo gay na TV brasileira”. Ativismo de fãs: conceitos, resistências e práticas na cultura digital brasileira. Anais Intercom 2014, Foz do Iguaçu, 2014.

AMARAL, Adriana. Manifestações da performatização do gosto nos sites de rede sociais: uma abordagem a partir da cultura pop. Revista Eco-Pós, v. 17, p. 8, 2014. Disponível em: http://revistas.ufrj.br/index.php/eco_pos/article/view/1769 Acesso em 05/10/2015.

VARGAS, Maria Lucia Bandeira. Do fã consumidor ao fã navegador: o fenômeno fanfiction. 210f. Dissertação (Mestrado em Letras), Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, 2005a.

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