Fichamento 07 – The Shallows

Em The Shallows, Nicholas Carr discute o efeito da internet na nossa percepção de mundo e como o ser humano cada vez mais se conecta ao modo que a internet funciona. Através de estudos de McLuhan, Carr discute a forma que as tecnologias foram alterando o ser humano. Carr também dia seus próprios relatos sobre como sua mente foi tornando-se menos concentrada após viver mais tempo online, dando um gancho especial para discorrer sobre como outras tecnologias na história da humanidade, como mapas e relógios, também alteraram nossa visção de mundo. Nesse ponto, é importante também o questionamento sobre quem influencia quem: Homem ou a tecnologia.

Por último, Carr também discorre sobre a história da linguagem do ser humano. Algo que, apesar de não ser exatamente uma tecnologia, também é uma influenciadora na percepção de mundo.

“No fundo, Os meios de comunicação era uma profecia, e o que profetizou foi a dissolução da mente linear. McLuhan declarou que a “mídia elétrica” do século XX – telefone, rádio, cinema, televisão – estava rompendo a tirania do texto sobre nossos pensamentos e sentidos.”

“Mas McLuhan, ao mesmo tempo um exibicionista e um erudito, era um mestre em frases de efeito, e uma delas, vinda das páginas do livro, sobrevive como um ditado popular: “O meio é a mensagem”. O que foi esquecido em nossa repetição desse aforismo enigmático é que McLuhan não estava apenas reconhecendo, e celebrando, o poder transformador das novas tecnologias de comunicação. Estava também alertando para a ameaça que esse poder representa – e o risco de ficar alheio a essa ameaça.”

“McLuhan entendeu que sempre que um novo meio de comunicação surge, as pessoas se envolvem naturalmente na informação – no “conteúdo” que ele traz. Interessam-se pela notícia no jornal, a música no rádio, os shows na TV, as palavras ditas pela pessoa na outra extremidade do telefone.”

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Marshall McLuhan

“Os entusiastas, com razão, louvam a corrente de novos conteúdos que a tecnologia proporciona, vendo-a como uma sinalização da “democratização” da cultura. Os céticos, com igual razão, condenam a falta de inteligência do conteúdo, vendo a mídia como uma sinalização do “emburrecimento” da cultura.”

“Como nossa janela para o mundo e para nós mesmos, uma mídia popular molda o que vemos e como o vemos – e por fim, se a usarmos bastante, muda quem somos, como indivíduos e como sociedade. “Os efeitos da tecnologia não ocorrem ao nível das opiniões ou conceitos”, escreveu McLuhan. Pelo contrário, eles alteram “padrões de percepção de forma constante e sem qualquer resistência”.”

“Nem mesmo McLuhan poderia ter previsto o banquete que a Internet tem colocado diante de nós: um prato seguido de outro, cada um mais suculento que o anterior, quase sem tempo para se recuperar o fôlego entre as mordidas.”

Cap. 1. HAL E EU

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“Sempre achei fácil mergulhar em um livro ou num artigo extenso. Minha mente sempre se envolveu nas reviravoltas da narrativa ou nas mudanças de argumento, e eu passava horas passeando por longos trechos de prosa. Isso raramente acontece agora. Minha concentração começa a derivar depois de uma página ou duas. Fico nervoso, perco a trama, começo a procurar outra coisa para fazer.”

“Acho que sei o que está acontecendo. Por bem mais de uma década, tenho ficado muito tempo online”

““O Google”, diz Heather Pringle, escritora da revista Archaeology, “é uma dádiva surpreendente para a humanidade, que reúne e concentra informações e ideias antes tão largamente dispersas pelo mundo todo, que dificilmente alguém conseguiria fazer uso delas”.”

“Elas fornecem o material do pensamento, mas também moldam o processo de pensamento. E o que a Web parece estar fazendo é enfraquecer aos poucos minha capacidade de concentração e de contemplação”

“Em 2008, um instituto de pesquisa e consultoria chamado nGenera divulgou um estudo dos efeitos do uso da Internet nos jovens (…) “A imersão digital”, escreveu o pesquisador-chefe, “afetou até a forma como absorvem a informação. Eles não necessariamente leem uma página da esquerda para a direita e de cima para baixo. Ao invés, pulam o texto, buscando as informações que lhes interessam””

“O alcance de sua influência é igualmente enorme. Por opção ou necessidade, adotamos o modo único e veloz como a rede recolhe e distribui informação.”

““Quando faço trabalhos manuais em tempo real por muitas horas, eu sinto que estou ficando mais esperto”. Muitos de nós já experimentaram sensações semelhantes quando estão online. As sensações são inebriantes, tanto que podem nos desviar das profundas consequências cognitivas da Web.”

“O computador, comecei a perceber, era mais que apenas uma ferramenta que fazia o que a gente mandasse fazer. Era uma máquina que, de maneira sutil e inconfundível, exercia influência sobre a gente. Quanto mais o usava, mais ele mudava meu modo de trabalhar.”

“Em 2007, uma serpente de dúvida surgiu no meu infoparaíso. Comecei a notar que a Internet estava exercendo uma influência muito mais forte e ampla sobre mim do que meu velho PC. Não era certo gastar tanto tempo olhando uma tela de computador. Não era certo mudar tantos hábitos e rotinas à medida que ficava mais acostumado e dependente de sites e serviços da web.”

Cap. 3. FERRAMENTAS PARA A MENTE

“Nosso amadurecimento intelectual como indivíduos pode ser medido pela forma como desenhamos imagens, ou mapas, de nossa região. Começamos com esboços primitivos e literais do que vemos ao redor, e avançamos até representações cada vez mais precisas e abstratas do espaço geográfico e topográfico. Progredimos, em outras palavras, do desenho do que vemos para o desenho do que conhecemos.”

“Toda tecnologia é uma expressão da vontade humana. Com nossas ferramentas, buscamos ampliar nosso poder e controle sobre as circunstâncias – a natureza, o tempo, a distância, um sobre o outro.”

“Nossas tecnologias podem ser divididas, grosso modo, em quatro categorias, de acordo com como completam ou ampliam nossas capacidades nativas. Um conjunto, que abrange o arado, a agulha de costura e o caça, amplia nossa força física, destreza ou flexibilidade”

“Um segundo conjunto, que inclui o microscópio, o amplificador e o contador Geiger, amplia o alcance e a sensibilidade de nossos sentidos. Um terceiro grupo, que vai das tecnologias como o açude e a pílula anticoncepcional ao milho geneticamente modificado, permite-nos mudar a natureza para melhor servir nossas necessidades e desejos.”

O mapa e o relógio pertencem à quarta categoria, melhor chamada, (…) de “tecnologias intelectuais”. A categoria inclui todas as ferramentas que usamos para estender ou apoiar nossos poderes mentais – para encontrar e classificar informações, formular e articular ideias, compartilhar know-how e conhecimento, fazer medições e realizar cálculos, expandir a capacidade de nossa memória.”

“A ética intelectual de uma tecnologia raramente é reconhecida por seus inventores. Eles normalmente estão tão empenhados em resolver um problema particular ou em desembaraçar um dilema científico ou de engenharia que não veem a extensão das implicações de seu trabalho.”

“Em última instância, é a ética intelectual de uma invenção que tem o efeito mais profundo em nós. A ética intelectual é a mensagem que um meio ou outra ferramenta transmite para as mentes e a cultura de seus usuários.”

“Durante séculos, historiadores e filósofos têm traçado e debatido o papel da tecnologia na formação da civilização. Alguns argumentaram o que o sociólogo Thorstein Veblen chamou de “determinismo tecnológico”. progresso tecnológico, visto como uma força autônoma fora do controle do homem, foi o principal fator a influenciar o curso da história humana.

“Na expressão mais extrema da visão determinista, os seres humanos tornam-se pouco mais do que “os órgãos genitais do mundo das máquinas”, como McLuhan memoravelmente escreveu em “Amante dos Gadgets”, capítulo de Os meios de comunicação.”

“No outro extremo estão os instrumentalistas – pessoas que, como David Sarnoff, minimizam o poder da tecnologia, crendo que as ferramentas são artefatos neutros, totalmente subservientes aos desejos conscientes de seus usuários”

O debate entre deterministas e instrumentistas é revelador. Ambos os lados trazem argumentos fortes. Se se olha para uma certa tecnologia em um certo ponto no tempo, certamente parece que, como afirmam os instrumentistas, nossas ferramentas estão firmemente sob nosso controle.”

“Mas se for tomada uma visão mais histórica ou social, as alegações dos deterministas ganham credibilidade. Embora os indivíduos e as comunidades possam tomar decisões muito diferentes sobre quais ferramentas usar, isso não quer dizer que, como espécies, tivemos controle sobre o caminho ou o ritmo do progresso tecnológico.”

“Às vezes, nossas ferramentas fazem o que mandamos; outras vezes, nós é que nos adaptarmos às exigências delas”.”

“O conflito entre deterministas e instrumentistas nunca será resolvido. Trata-se, afinal, de duas visões radicalmente diferentes da natureza e do destino da humanidade. O debate é tanto sobre a fé quanto sobre a razão. Mas há uma coisa em que ambos concordam: os avanços tecnológicos muitas vezes marcam momentos decisivos na história O MAPA E o relógio mudaram indiretamente a linguagem, sugerindo novas metáforas para descrever os fenômenos naturais. Outras tecnologias intelectuais mudam a linguagem de maneira mais direta e profunda, por realmente alterar nossa forma de falar e ouvir, de ler e escrever”

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““As tecnologias não são meros assistentes externos, mas sim, transformações interiores da consciência, mais ainda quando afetam a palavra”. A história da língua é também uma história da mente.”

“Em uma cultura puramente oral, o pensamento é regido pela capacidade da memória humana. O conhecimento é o que se consegue lembrar, e o que se lembra é limitado ao que se pode guardar na mente. Através dos milênios de história pré alfabetizada, a linguagem evoluiu para ajudar o armazenamento de informações complexas em memória individual e tornar mais fácil a troca de informações com outras pessoas através da fala.”

““As conquistas do mundo ocidental, é óbvio, são testemunho dos tremendos valores da alfabetização”, escreveu McLuhan.”

“Mas a alfabetização “é plenamente necessária para o desenvolvimento não só da ciência, mas também da história, da filosofia, da compreensão detalhada da literatura e de qualquer arte, e de fato para a explicação da linguagem em si (inclusive a fala)”. A habilidade de escrever é “imperiosamente inestimável e de fato essencial para a realização dos potenciais humanos mais íntimos e completos”, concluiu. “Escrever eleva a consciência”.”

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