Fichamento 09 – O Culto do Amador

“Segundo a teoria de Huxley, se fornecermos a um número infinito de macacos um número ininito de máquinas de escrever, em algum lugar alguns macacos acabarão criando uma obra-prima — uma peça de Shakespeare, um diálogo de Platão ou um tratado econômico de Adam Smith.”

“Mas o que outrora parecia uma piada agora parece predizer as consequências de um achatamento da cultura que está embaçando as fronteiras entre público e autor, criador e consumidor, especialista e amador no sentido tradicional.”

“E em vez de criarem obras-primas, esses milhões e milhões de macacos exuberantes – muitos sem mais talento nas artes criativas que nossos primos primatas – estão criando uma interminável floresta de mediocridade.”

“Os blogs tornaram-se tão vertiginosamente infinitos que solaparam nosso senso do que é verdadeiro e do que é falso, do que é real e do que é imaginário. Hoje em dia, as crianças não sabem distinguir entre notícias críveis escritas por jornalistas profissionais objetivos e o que leem em fulano.blogspot.com. Para os utopistas da Geração Y, toda postagem é a versão da verdade de mais uma pessoa; toda ficção é a versão dos fatos de mais uma pessoa.”

“Mais perturbador que o fato de milhões de nós sintonizarmos de bom grado esse tipo de tolice diariamente é que alguns sites estão nos transformando em macacos sem sequer nos darmos conta. Quando digitamos palavras no Google, estamos de fato criando algo chamado “inteligência coletiva”, a sabedoria total de todos os usuários do Google.”

Capítulo 1 – A Grande Sedução

“Essa nova e reluzente versão da Internet, que Tim O’Reilly chamou de Web 2.0, iria realmente mudar tudo. Agora que a maioria dos americanos tinha acesso à banda larga, o sonho de uma sociedade inteiramente conectada, e sempre conectada, seria inicialmente realizado. Uma palavra estava em todos os lábios no FOO Camp: “democratização”.”

“Iria até democratizar os grandes especialistas, transformando-os no que um amigo de O’Reilly chamou, num tom contido e reverente, de “nobres amadores”.”

“Eu chamo isso de a grande sedução. A revolução da Web 2.0 disseminou a promessa de levar mais verdade a mais pessoas — mais profundidade de informação, perspectiva global, opinião imparcial fornecida por observadores desapaixonados. Porém, tudo isso é uma cortina de fumaça. O que a revolução da Web 2.0 está realmente proporcionando são observações superficiais do mundo, em vez de uma análise profunda, opinião estridente, ou um julgamento ponderado. O negócio da informação está sendo transformado pela Internet no puro barulho de 100 mil de blogueiros, todos falando simultaneamente sobre si mesmos.”

“A verdade de uma pessoa torna-se tão “verdadeira” quanto a de qualquer outra. Hoje a mídia está estilhaçando o mundo em um bilhão de verdades personalizadas, todas parecendo igualmente válidas e igualmente valiosas.”

“Num mundo com cada vez menos editores ou revisores profissionais, como vamos saber o que acreditar e em quem acreditar? Como grande parte do conteúdo gerado pelo usuário é publicado anonimamente ou sob um pseudônimo, ninguém sabe quem é o verdadeiro autor da maior parte do conteúdo autogerado.”

“Em um mundo no qual plateia e autor são cada vez mais indistinguíveis, e onde a autenticidade é quase impossível de ser verificada, a ideia original de autoria e propriedade intelectual tem sido seriamente comprometida.”

“Uma pesquisa publicada na Education Week constatou que 54% dos estudantes admitiram plagiar com ajuda da Internet. Quem diz se os outros 46% estão dizendo a verdade? Copyright e autoria começam a perder o significado para aqueles que postam seus mash-ups e remixes na web. Eles são, como observa a Profa Sally Brown da Universidade Leeds Metropolitan, “pós-modernos, ecléticos, google generacionistas, wikipedistas, que não necessariamente reconhecem os conceitos de autoria/propriedade”.”

O Custo da Democratização

“O desfoque da fronteira entre o público e o autor, fato e ficção, invenção e realidade obscurece mais ainda a objetividade. O culto do amador tornou cada vez mais difícil determinar a diferença entre o leitor e o escritor, o artista e o porta-voz, arte e propaganda, amadores e especialistas. O resultado? A queda da qualidade e da confiabilidade das informações que recebemos, o que desvirtua, ou até corrompe descaradamente nossa conversa cívica nacional.”

“A Cauda Longa praticamente redefine a palavra “economia”, deslocando-a da ciência da escassez para a ciência da abundância, um mercado promissor e infinito no qual “ciclamos” e reciclamos nossa produção cultural para o conteúdo de nossos corações. É uma ideia sedutora. Mas mesmo que se aceitem os duvidosos argumentos econômicos de Anderson, a teoria tem um furo gritante. Anderson assume que o talento bruto é tão infinito quanto o espaço de prateleira na Amazon ou no eBay. Mas embora possa haver máquinas de escrever infinitas, há uma escassez de talento, competência, experiência e domínio em qualquer área. Encontrar e promover o verdadeiro talento em um mar de amadores pode ser o verdadeiro desafio da Web 2.0. O fato é que a visão de Anderson de uma mídia achatada, sem hits, é uma profecia autorrealizável. Sem o cultivo de talentos, não haverá mais hits, pois o talento que os cria nunca é cultivado ou não tem permissão para brilhar.”

“Cultivar talento exige trabalho, capital, competência, investimento. Requer a infraestrutura complexa da mídia tradicional – olheiros, agentes, editores, publicitários, técnicos, marqueteiros. O talento é construído pelos intermediários. Se se os “desintermedia”, acaba-se também com o desenvolvimento do talento.”

“Onde isso tudo vai parar? Com um canal para cada um de nós, onde seremos a emissora solitária e seu único espectador? Esta seria a democratização no nível mais fundamental. Essa absurda conclusão não é pura fantasia. No curto espaço de tempo desde o FOO Camp de 2004, explodiu a revolução do conteúdo da Web 2.0, narcisista, autogratiicante, autogerada.”

“Isso é mais verdadeiro do que nunca. Na era da autopublicação, ninguém sabe se você é um cão, um macaco ou o coelhinho da Páscoa. Todo mundo está tão ocupado se autodifudindo (egocasting), imerso demais na luta darwiniana pela compartilhamento da mente, para dar ouvido ao outro. Mas não podemos culpar outras espécies por este triste estado. Nós seres humanos monopolizamos o centro das atenções nesta nova fase da mídia democratizada. Somos ao mesmo tempo os escritores amadores, os produtores amadores, os técnicos amadores e, sim, os espectadores amadores.”

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